Rejeitar o avanço tecnológico já deixou de ser saudosismo e conservadorismo. Virou há muito tempo “falta de inteligência e bom senso”.

O mundo evolui, o esporte tem de evoluir. Regras são modificadas e adaptadas de acordo com as necessidades da nova era. A cobertura da televisão eliminou as três saídas nas provas de natação, hoje soaria até ridículo em ter tal tipo de regra.

A utilização de câmeras entrou em quase todos os esportes, para não dizer todos. Análise durante e pós-eventos podem determinar lances, pontos, gols e punições. Por algum motivo, ninguém sabe qual, a FINA rejeita isso.

Por três anos, 2003 a 2005, tivemos uma série de eventos que determinaram uma discussão que “quase” trouxe as câmeras para a natação competitiva. Em 2003, surgia o fenômeno Kosuke Kitajima que venceu o Mundial de Barcelona nas provas de 100 e 200 peito. No pódium, pronto para receber sua medalha de ouro escutou um sonoro “oooohhhhh” da torcida espanhola espantada com as imagens da prova que eram reproduzidas no telão. Kitajima dava uma pernada monstruosa de borboleta na filipina. Coisa que acabou sendo sua assinatura também na conquista do ouro dos 100 peito pela primeira vez em Jogos Olímpicos no ano seguinte.

Em 2005, no Mundial de Montreal, foi a vez da polonesa Otylia Jedrejzack vencer a prova dos 200 borboleta em situação desesperada ao vencer o ouro com apenas uma mão na chegada em ato que ela jamais reconheceu que errou. No mesmo Mundial, o veterano alemão Mark Warnecke ganhou o título dos 50 peito em descarada pernada submersa, aprendeu com o mestre Kitajima.

Ali mesmo, no Congresso de Montreal, era aprovada a regra que a partir de 2006 permitiria o uso da pernada de borboleta na filipina. Ali mesmo também, as câmeras sub-aquáticas entraram na discussão para serem utilizadas primeiramente como acessórios para dirimir dúvidas.

Discussões, reuniões, avaliações, a FINA nunca aprovou a medida das câmeras. Alega que o sistema é caro, e até mesmo impreciso.

A USA Swimming pensa diferente. Instalou 40 câmeras sub-aquáticas no Olympic Trials do ano passado. Todas as desclassificações, todas, sem exceção, feitas pela arbitragem tiveram confirmação nas câmeras. Ainda não se utilizou o que se vê nas câmeras para desclassificar, e sim apenas para confirmar o que se viu pela arbitragem. Um grande passo, ainda não completo, mas com certeza algo que já faria muita diferença.

A FINA, mesmo sabendo de tudo isso, sabendo que funcionou, continua recusando o uso. Cornel Marculescu, dirigente da entidade, chegou a comentar no Congresso da entidade em outubro em Moscou: “Câmeras sub-aquáticas só para um estilo? Não justifica” disse ele.

Marculescu não pensou muito no que falou. No Mundial de Barcelona, o “único estilo” que o dirigente da FINA cita, estará em 12 provas, 30% do total de 40 provas do programa: 50, 100 e 200 peito, 200 e 400 medley, 4 x 100 medley,  masculino e feminino.

Nem só por isso, mas dar ao esporte uma conotação mais justa, mais limpa. Assistir ao sul-africano Cameron van den Burgh reconhecer que usou mais de uma pernada de borboleta na saída do seu recorde mundial em Londres e dizer que todo mundo faz e só fez porque se não fizesse não venceria, foi doloroso. Foi uma desmoralização da regra, mas como Marculescu disse “não justifica para só um estilo”.

Agora, vamos para a próxima geração do nado peito. Uma mudança está sendo levantada como a solução para evitar o que a arbitragem não consegue enxergar. Ao invés de eliminarmos os “aproveitadores” vamos mudar a regra do nado? Vamos simplesmente criar uma zona livre e façam o que quiserem?

Pois é isso que o Comitê Técnico da FINA recomendou ao Bureau que vai recomendar a Assembléia Geral. Esta se reunirá no dia 26 de julho em Barcelona, dois dias antes do início da natação e decidirá o futuro da regra do nado peito e outras que estarão em discussão.

Ao invés de dar espaço ao controle das câmeras sub-aquáticas e eliminar os “aproveitadores” vamos modificar a essência do nado.

Se tivéssemos a implantação das câmeras tudo isso poderia ser evitado. Campeonatos Mundiais, Copas do Mundo, competições continentais todas teriam a obrigação de implantar o sistema que por mais caro que seja não seria inviável, em benefício do próprio esporte.

A implantação das câmeras também determinaria uma mudança na obtenção de recordes mundiais. Para uma marca ser alcançada só poderia ser feita em eventos que tivessem todo este sistema implantado. Algo que iria incentivar as federações de todos países a investir no implemento.

Mesmo que os atuais dirigentes da FINA não vejam assim, a implantação do vídeo para controle de arbitragem é uma questão de tempo. Tomara que este tempo seja o menor possível afim de evitar este absurdo que estamos prestes a ver acontecer no próximo mês de julho em Barcelona.

Ohhh teimosia caduca…

Por Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming Inc.

2 respostas
  1. Daniel Takata
    Daniel Takata says:

    Perfeita análise. A FINA não é a única a rejeitar a utilizar a tecnologia – muitas federações resistem. Equipes de vôlei quebram o pau por causa de supostas marcações incorretas, dúvidas que câmeras tirariam no mesmo instante. No ano passado, no futebol, um palmeirense fez um gol de mão claro, foi anulado, mas ao se ouvirem rumores de que o juiz se utilizara de informações passadas através da transmissão da televisão, o que não é contemplado pelas regras do esporte, o time quis de todo o jeito validar o lance claramente ilegal. O fato do esporte não evoluir no mesmo ritmo do planeta causa essas distorções, essas inversões de valores, como o já citado exemplo do sul-africano Cameron van der Burgh em Londres. Também gostaria de saber o motivo pelo qual essas federações e a FINA rejeitam a evolução.

  2. juliana
    juliana says:

    Acho que já passou da hora de utilizar a tecnologia a nosso favor . Agora, a FINA reclamar que é caro? Ah por favor né? absurdo ela dar essa “desculpa” . Obrigue ao menos nos grandes eventos, nos mais importantes. É o mínimo que essa entidade deve fazer. Se continuar assim,vamos nadar p/ trás, e viver de amadorismo.

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