Muita gente, mas muita gente mesmo, torceu e vibrou com a França campeã mundial de handebol masculino ontem frente a Seleção “importada” do Catar em vitória de 25 a 22. A impressão é de que foi feita a “justiça” frente aos poderosos riyals, moeda do rico Catar, a maior renda per capita deste planeta.

A preferência popular não é a toa, afinal ter 10 dos 16 jogadores que participaram do Mundial são nascidos em outro países e “naturalizados” para a competição. Culpar o Catar e jogar pedras nos ricos sheiks que brincam de fazer esporte não vai ajudar muito o esporte mundial.

Afinal, isso não é um problema isolado. A França, vice campeã e que contou com a torcida dos puristas tinha dois estrangeiros, um da Bósnia e outro da Sérvia. A troca de nacionalidades é algo que existe há muitos anos. E não foi o Catar que começou isso. Os cataris só entraram no movimento olímpico em 1984.

O primeiro abuso desta troca de nacionalidades nos remonta a década de 20. Isso mesmo, quase 100 anos atrás. A Grã-Bretanha investiu pesado na busca de jogadores para o seu time de hóquei sobre gelo e trouxe um bocado de canadenses. O investimento resultou no primeiro e único ouro dos britânicos nos Jogos Olímpicos neste esporte. Na equipe campeã, 9 dos 13 jogadores era canadenses.

Durante estes quase 100 anos de esporte, a coisa globalizou geral. Corredores africanos estão na Europa, na Ásia., chineses do tênis de mesa estão nos Estados Unidos, levantadores de peso da Bulgária estão no Oriente Médio, e por aí vai.

Na Copa do Mundo do Brasil no ano passado, a estatística indicou que 85 jogadores estavam representando um país diferente de sua pátria mãe. O mais beneficiado foi a Argélia que tinha 18 jogadores estrangeiros na sua equipe, a grande maioria francesa. Aliás, dos países na Copa do Mundo do Brasil, apenas o Brasil, Colômbia, Coréia do Sul, Equador, Honduras e Rússia não tinham nenhum jogador estrangeiro em suas equipes. O resto, 26 países, todos tinham pelo menos um vindo de outra nação.

Até a Alemanha, campeã da Copa, também tinha estrangeiros, Lukas Podolski e Miroslav Klose nasceram na Polônia.

Nos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi no ano passado, dos 3.000 atletas presentes, 120 faziam parte desta turma de estrangeiros. O Canadá é quem liderou a lista dos mais beneficiados com 9 estrangeiros, seguido de Rússia e Estados Unidos com 7 e França, isso mesmo, a França com 6. Até o Brasil teve uma atleta estrangeira. Nossa patinadora artística, Isadora Williams, nasceu e vive nos Estados Unidos, nem fala português, mas a mãe é brasileira, ganhando assim o direito de defender o nosso país.

É, também estamos nesta lista de “globalização”. Nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012 tínhamos o americano Larry Taylor no basquete e a chinesa Gui Lin no tênis de mesa. Na semana passada, o lutador armênio Eduard Soghomonyan ganhou a sua cidadania e vai defender o Brasil no Rio 2016. O nosso pólo aquático aguarda com ansiedade a aprovação do Ministério da Justiça das cidadanias do croata Josip Vrlic, do cubano Yves Gonzalez e do sérvio Slobodan Soro. No passado, já tivemos a ajuda dos argentinos Fernando Megligeni no tênis e de Sebastian Cualttrin na canoagem.

Não tem jeito, está todo mundo nesta. Os Estados Unidos, maior nação esportiva do mundo, dos mais de 600 atletas que levou para os Jogos de Londres em 2012, mais de 40 não eram americanos de nascimento.

A troca de nação causa alguns contratempos. A primeira experiência de importar/investir do Catar foi nos Jogos de Sydney em 2000 quando Assad Said Saif foi bronze no levantamento de peso, e para surpresa de todos, não apareceu na entrevista coletiva para a imprensa. Búlgaro de nascimento, os dirigentes cataris optaram por deixá-lo de fora da pressão em não saber uma só palavra em árabe.

Papelão mesmo foi no Campeonato Mundial de Tiro disputado em março de 2012 no Kuwait. Maria Dmitrienko, russa de nascimento, competindo pelo Cazaquistão foi ouro e na cerimônia de premiação a organização cometeu uma grande gafe ao trocar o hino nacional do país pela música de Borat, filme que satirizava o país. Dmitrienko, sem saber nada sobre o Cazaquistão, ficou no pódio escutando o hino como nada estivesse errado.

O fiasco do hino do Cazaquistão custou a todos os atletas do país que foram ao Jogos de Londres a obrigação de gravar um vídeo cantando o hino do país e enviado ao comitê olímpico nacional antes de terem aprovadas as suas viagens para a Olimpíada. Desta o Catar pelo menos escapou. Todos os jogadores cantavam em alto brado o hino nacional nos jogos de handebol deste mundial. Alguns até faziam algum “embromation”, mas a coisa estava muito próxima do hino a capela.

Não há como não relacionar a troca de países pelos benefícios extras. O caso mais atípico veio com Fuahea Semi atleta do luge, esporte dos Jogos de Inverno. Nascido em Tonga, aos 26 anos, o atleta recebeu uma proposta de defender a Alemanha, mais dinheiro, mais exposição. Na hora de escolher o nome, Bruno Banani. O sobrenome ganhou uma premiação extra, ao levar a marca de uma empresa de roupas interiores alemãs.

A troca de nações soa agressiva, chega até a ferir. Ídolo nacional na Coréia do Sul, o patinador Ahn Hyun-soo venceu três medalhas de ouro nos Jogos de Inverno de 2006. Lesionado, dois anos depos, não teve o apoio da federação para a sua recuperação e acabou de fora da equipe para os Jogos de Vancouver em 2010. Saiu em busca de uma nova pátria para defender. Encontrou a Rússia onde brilhou nos Jogos de Sochi no ano passado agora sob o nome Viktor Ahn.

A escolha pelo nome Viktor, é que Ahn gosta de rock e conhece um roqueiro tradicional na Rússia, Viktor Tsoi, o qual em homenagem decidiu pelo novo nome. Eu mesmo vi, estava em Sochi, e assisti os russos a gritarem com emoção durante as suas provas: “VIKTOR, VIKTOR…”.

Como se vê, o problema é geral. É mundial, não é catari. Talvez o Catar tenha abusado, é muita grana, muita ostentação. Os esportes no país são munidos pelos prazeres dos príncipes e sheikhs que se divertem investindo. Na liga de futebol nacional, cada um tem um time. Compram jogadores, investem e fazem um campeonato onde ninguém assiste, ninguém prestigia, ninguém liga. Apenas a disputa de vaidade entre eles mesmo.

Um dos casos mais famosos de importação foi o corredor queniano Stephen Cherono, recordista mundial dos 3.000 metros. No Catar desde 2003, ele virou Saif Saaeed Shaheen ganhando 1.000 dólares mensais até a sua morte. O Catar balançou a natação mundial antes dos Jogos da Ásia de 2006. Na época, interessados em montar um super time fizeram propostas altíssimas para grandes nomes da natação mundial como Roland Schoeman, Domenico Fioravanti, Duje Draganja. Todas falharam por não haver tempo hábil para as suas regulamentações.

A compensação financeira faz a diferença. Não foi a toa que se viu os “cataris” comemorando muito mais do que os franceses mesmo tendo perdido a final do Mundial ontem. Os cataris são os mais agressivos neste processo, mas não são os únicos.

Como mesmo disse um sheikh na semana passada, o Catar segue as regras internacionais. E faz mesmo. O problema é que as regras do Comitê Olímpico Internacional e Federações Internacionais permitem isso.

O COI trata disso na Carta Olímpica 41. No seu parágrafo 2 é indicado que o atleta não poderá representar o novo país passados três anos antes da sua última representação. As Federações Internacionais, para complicar, tem regulamentos diferentes, algumas, como a FINA exigem apenas um ano de “residência comprovada” no no país.

Residência comprovada é algo como alugar um apartamento, ter contas no seu nome, e mesmo treinando fora sem qualquer problema. Afinal, o atleta estava em “training camp”.

Enfim, o problema é grande, e talvez possa até comprometer o futuro e a reputação dos Jogos Olímpicos. Só não acho justo dar a culpa disso tudo aos cataris. Eles apenas têm mais dinheiro que nós, muito mais.

Alexandre de A. Pussieldi, editor chefe Best Swimming Inc.

1 responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário