Brasília, 22 de setembro de 2016

O Brasil viveu, em agosto e neste mês, o maior momento esportivo de sua história bdom a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. O país sai de ambos os megaeventos tendo sua capacidade de organização reconhecida internacionalmente e com nosso povo, mais uma vez, tendo reforçado aquilo que o mundo já sabia: que somos uma gente calorosa, generosa, aberta a novas culturas, a diferentes religiões, que há tempos aprendeu que sorrisos e cordialidade são linguagens universais capazes de superar qualquer barreira de idiomas.

Os legados estruturais dos Jogos Rio 2016 são incontestáveis. Mas há, ainda, uma herança das Olimpíadas e Paralimpíadas que talvez seja mais importante e que se traduz em uma mudança de atitude e de mentalidade no que diz respeito à maneira de administrar o esporte no Brasil.

Já há algum tempo, temos visto, lido e ouvido nos principais veículos do país matérias que se referem a escândalos de desvios em confederações esportivas brasileiras.  Nesse sentido eu me sinto compelido a me manifestar não apenas por força do cargo que hoje ocupo no Ministério do Esporte, de secretário nacional de Alto Rendimento, mas por todo o meu passado como atleta que disputou eventos em dezenas de países e que por duas ocasiões defendeu as cores do Brasil em Jogos Olímpicos: em Atlanta 1996 e Sydney 2000.

Cada vez mais me sinto convicto de que o papel das confederações esportivas não deve ser apenas o de organizar as seleções nacionais. As confederações devem ir muito além na promoção do desenvolvimento de suas modalidades em todo o território nacional e isso só será possível com a participação efetiva de suas federações filiadas e de uma maior oxigenação entre nossos dirigentes.

Vimos nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos que os esportes não são estruturas blindadas. Eles evoluem de acordo com as mudanças culturais, políticas e sociais em curso. Mas, infelizmente, ainda há muito a ser feito no Brasil nesse sentido até que nossa organização esportiva possa acompanhar esse fluxo constante de evolução.

Como secretário nacional de esporte de Alto Rendimento, meu papel é zelar pelos interesses dos atletas. E para que as confederações se tornem entidades cada vez mais eficientes e possam agir pautadas por preceitos que busquem a transparência e a responsabilidade com o uso do dinheiro público, acredito que uma reforma no processo de escolha dos dirigentes é imprescindível.

Sendo os atletas a alma de qualquer confederação, é fundamental que não só eles, mas os técnicos, os clubes e as federações possam ter a mesma voz nos processos eletivos das confederações.

Atualmente, só os presidentes de federações participam das eleições. Aos atletas cabe se manifestar por meio de uma comissão de atletas cujo peso no processo equivale ao voto de um estado. Ou seja: sendo nosso país formado por 27 unidades da federação, o poder de decisão dos atletas torna-se, portanto, ínfimo.

Como secretário nacional de esporte de Alto Rendimento, informo,  que em relação às denúncias em curso, a SNEAR está analisando caso a caso todos estes projetos de modo a proteger o interesse de atletas desvinculados da gestão destas confederações e com o propósito de verificar a regular gestão dos recursos públicos.  

Como ex-atleta olímpico e como professor de educação física, entretanto, sinto-me envergonhado e lamento profundamente que tenhamos que conviver com denúncias tão graves em um momento em que deveríamos todos apenas celebrando tudo o que conquistamos com os Jogos Rio 2016.

Espero que possamos avançar no debate sobre o papel dos atletas, técnicos e clubes nos processos de escolha de nossos dirigentes esportivos. Tenho certeza de que, se conquistarmos isso, ampliaremos em muito nossas chances de que tenhamos confederações cada vez eficientes, transparentes e antenadas com as mudanças que nosso mundo esportivo constantemente exigem.

Luiz Lima
Secretário Nacional de Esporte de Alto Rendimento

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