Mauri Fonseca é daquelas pessoas que vale a pena conhecer, conviver, desfrutar. De fala fácil, alegre, divertida, histórias é o que não falta neste repertório. Seja como nadador, treinador, dirigente, empresário, foi um privilégio muito grande poder ter convivido com você.

Neste dia que você nos deixa, eu conto uma história que tive a oportunidade de compartilhar contigo (e que você nem lembrava). Na década de 70, este limitado nadador que vos escreve tinha ambições e sonhos no esporte. O Grêmio Náutico União, era um dos principais clubes da natação brasileira e no comando, Mauri Fonseca.

Eram muitos atletas, e nossas equipes eram divididas por letras, A, B, e C. Eu, ainda jovem, estava na equipe C, determinado em um dia poder fazer parte daquele grupo de elite. Melhorei, ganhei algumas medalhas, me tornei campeão estadual e até cheguei na equipe B. Mauri ainda liderava a equipe A e eu não desistia do meu sonho.

Sem ter a promoção desejada, fui assistir o treino daquela equipe de elite e me dirigi ao comandante geral, Mauri Fonseca, e fiz o pedido. “Quando eu vou passar para a equipe A?”. Mauri não me enrolou, ele sempre foi de fala direta, e me respondeu: “muitos são os convidados, mas poucos são os escolhidos”. Levei anos para identificar que isso era uma passagem bíblica, mas sem gerar frustrações o vitorioso treinador ainda consolou o jovem atleta me presenteando com um óculos de natação, na época era nosso sonho de consumo.

Anos depois, Mauri sai do União, eu chego a equipe principal que não se chama mais equipe A, mas seguiu por anos como a líder da natação gaúcha. No ano em que eu me aposentei das piscinas, o União perdeu a sua sequência de mais de 30 anos de títulos para uma equipe comandada por Mauri.

Ele voltaria ao clube outras tantas vezes, era quase que natural. Deu problema na natação do União, traz o Mauri que ele conserta. E não foram poucas as vezes que foi chamado. Da mesma forma que Mauri era esta figura alegre e sempre em alto astral não media palavras e era duro nas críticas. A turma que não se dedicava muito ganhava logo o apelido de “batalhão da bosta”.

Mauri esteve a frente de seu tempo por décadas. Foi líder e construiu cidadãos, dentro e fora do esporte. Criou uma cadeia de profissionais que se inspiraram em seu trabalho e se tornaram treinadores apaixonados pelo esporte que ele nos ajudou a amar.

Este líder sempre foi um homem família, e gostava de família grande, muitos filhos, netos e amigos, muitos amigos. Gostava de fazer churrascos e contar histórias, talvez uma de suas tantas alegrias, entre os animais, o sítio, e sempre a família.

Há alguns anos, estive em Porto Alegre e pedi para visitá-lo. Estive em sua academia e fui lá para lhe dizer o que o título deste editorial nos traz: “Obrigado Mauri”. Ele ficou sem jeito, sem entender, ainda mais quando eu contei a história que ele nunca me chamou para nadar na equipe A.

Enquanto riamos e nos lembrávamos de todas estas passagens, fiz questão de mostrar a Mauri que gratidão é reconhecer que nada do que somos foi construído sozinho. Estar ali naquele dia e poder dizer tudo aquilo para o Mauri me fez bem, e tenho certeza de que também fez a ele.

Nestes últimos anos, as mensagens que recebia de Mauri vinha de seus filhos queridos. Mandávamos recados um para o outro e hoje acordei com a notícia de sua partida.

Embora a dor seja grande, a saudade vai ser ainda maior, tem algo que nos conforta que foi a alegria e o prazer de ter tido a sua convivência. Mauri deixou um legado registrado em nossas memórias e será sempre lembrado.

Apenas repetindo, obrigado Mauri!