Quando um clube contrata um nadador, normalmente pensa nos pontos que ele poderá acrescentar à equipe, no impacto sobre os revezamentos e na projeção de resultados em campeonatos nacionais e internacionais.
Quando fiz essa pergunta a Régis Mencia, head coach da natação do Recreio da Juventude, ele foi direto:
— Zero!
Estamos falando da chegada de Guilherme Caribé, anunciado na semana passada pelo Recreio da Juventude como o maior reforço já contratado por uma equipe do Sul do Brasil.
Multicampeão nacional, campeão pan-americano, duas vezes medalhista de prata em Mundial de piscina curta, finalista de Mundial em piscina longa e semifinalista olímpico, Caribé é hoje, sem qualquer exagero, a maior esperança de medalha da natação brasileira para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.
Mas, se os pontos que ele pode marcar não são o aspecto mais importante dessa contratação, o que um jovem baiano de 23 anos pode acrescentar a um clube localizado no interior do Rio Grande do Sul?
Para compreender o potencial gigantesco dessa união, primeiro precisamos entender o tamanho das partes envolvidas.
O Recreio da Juventude é um clube socioesportivo fundado em 1912, com aproximadamente 19 mil associados e mais de 2 mil atletas. Desenvolve modalidades como handebol, judô, basquete, futsal, badminton, futebol, ginástica artística, padel, tênis, voleibol e natação, com atividades de iniciação, formação, competição, esporte máster e paralímpico.
Com quatro sedes ativas, é motivo de orgulho para a comunidade e uma instituição reconhecida nacionalmente. Está entre os poucos clubes brasileiros que já receberam a Placa Ouro da Fenaclubes, distinção concedida às principais agremiações esportivas do país.
E Caxias do Sul?
Localizada no alto da Serra Gaúcha, a cidade tem 136 anos e uma população estimada em quase 480 mil habitantes. Formada inicialmente a partir da colonização italiana, Caxias deixou há muito tempo de ser conhecida apenas pela produção de uvas e vinhos.
Hoje, é um dos maiores centros industriais do país e ocupa a 37ª posição entre as maiores economias municipais do Brasil.
Lembro-me de estar nos Jogos Asiáticos de Doha, no Catar, em 2006. Era um evento gigantesco, reunindo milhares de atletas e integrantes de delegações de todo o continente. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a enorme frota de ônibus novos, modernos e personalizados que transportava atletas e oficiais entre as instalações esportivas e a Vila dos Atletas.
Para minha surpresa, aquelas dezenas de ônibus levavam uma marca muito conhecida por nós: Marcopolo!
A fabricante de ônibus é uma das gigantes sediadas em Caxias do Sul. A cidade também abriga empresas como Randoncorp, Frasle Mobility, Agrale, JOST Brasil, Soprano, Mundial e Pisani. A lista é extensa. E, ali ao lado, em Carlos Barbosa, está outra potência industrial brasileira: a Tramontina.
O poder econômico da região é extraordinário. E todo esse potencial representa um verdadeiro mar de oportunidades.
De um lado, temos um atleta jovem, de boa imagem, altíssimo rendimento e enorme perspectiva internacional. Do outro, um clube com forte presença na comunidade, uma cidade industrialmente poderosa e empresas capazes de levar seus nomes, produtos e marcas para o mundo.
O projeto é grandioso. E suas possibilidades são ainda maiores.
A chegada de Caribé pode representar o início de um novo movimento de incentivo e valorização do atleta brasileiro, oferecendo plataformas diferentes de exposição, relacionamento e construção de imagem.
Quem acompanha o marketing esportivo no Brasil sabe que os investimentos ainda são excessivamente concentrados — e, muitas vezes, restritos — ao ano olímpico. As empresas aparecem quando o atleta já está próximo de conquistar uma medalha e pode ser utilizado em campanhas imediatamente associadas aos Jogos.
Precisamos inverter essa lógica.
O verdadeiro projeto olímpico começa antes. Ele acompanha a preparação, participa da caminhada e ajuda a construir o resultado.
Para que essa iniciativa alcance toda a sua dimensão, será necessário promover aquilo que costumo chamar de “furar a bolha”. Precisamos mostrar às empresas que um atleta como Guilherme Caribé não gera apenas resultados dentro da piscina. Ele pode produzir identificação, reputação, conteúdo, visibilidade e impacto positivo para marcas e produtos.
Ao empresário que ainda não conhece sua história, vale a apresentação.
Aos 23 anos, Caribé está concluindo sua formação acadêmica em Comunicação na Universidade do Tennessee, uma das instituições públicas mais respeitadas dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, despede-se como um dos nadadores mais destacados da história do programa.
Sua evolução no sistema universitário norte-americano foi extraordinária. Chegou como um jovem talento brasileiro e se transformou em campeão da NCAA em revezamentos, recordista e um dos mais rápidos velocistas da história da competição.
Estamos falando também do nadador que encerrou 2025 com o terceiro melhor tempo do mundo nos 100 metros livre.
Os 47.10 registrados por Caribé no Troféu Maria Lenk de 2025 teriam conquistado uma medalha em todas as edições olímpicas da história. O tempo teria valido o ouro em todas as Olimpíadas até o Rio 2016, seria bronze em Tóquio 2020 e prata em Paris 2024.
Isso ajuda a traduzir a dimensão esportiva do atleta que está chegando a Caxias do Sul.
Caribé pode tornar a cidade ainda mais conhecida. Pode ampliar nacionalmente o espaço conquistado pelo emergente projeto esportivo do Recreio da Juventude. E, principalmente, pode se transformar em referência para milhares de crianças que passarão a olhar para a natação com outros olhos.
Algumas delas poderão vê-lo treinando. Outras acompanharão suas competições. Muitas passarão a sonhar porque compreenderão que um dos melhores nadadores do mundo representa o clube da sua própria cidade.
Por tudo isso, Caribé não deve ser tratado apenas como uma contratação.
Caribé é um projeto.
Sua imagem precisa ser trabalhada e comercializada. Deve estar associada a campanhas, produtos, experiências, ações sociais e projetos educacionais. Sua chegada ao Recreio precisa se transformar em um movimento capaz de integrar atleta, clube, comunidade e empresas.
No final, os benefícios não ficarão restritos aos resultados esportivos. Ganharão o Recreio da Juventude, Caxias do Sul, as empresas que acreditarem no projeto e a própria natação brasileira.
Mais do que isso: poderá nascer ali uma nova referência para o marketing esportivo nacional, mostrando que é possível furar a bolha, construir um ídolo e investir em uma medalha olímpica antes que ela aconteça.
A sonhada medalha de Guilherme Caribé pode deixar de ser apenas o resultado do esforço individual de um atleta. Ela pode se transformar em um sentimento coletivo, construído pela integração de uma comunidade inteira em torno de um objetivo.
É esse o verdadeiro tamanho da chegada de Caribé.
Viva o Projeto Guilherme Caribé!
Foto Jack Spitser SwimSwam


