Não é de hoje que falo isso, mas infelizmente nossa classe de nadadores é muito desunida, mas muito mesmo. Ações pontuais de mobilização são raras, e quando acontecem, sempre há interesses diretos e benefícios específicos.

Escrevo isso pois não consigo aceitar que até hoje, poucos, raríssimos, ou quase nenhum nadador tenha se manifestado em relação aos critérios das provas de 50 metros nos estilos nos Jogos Olímpicos.

Parece que todos fomos entorpecidos, na verdade enganados, pela entrada “fake” das provas de 50 em um movimento que durou décadas e que finalmente vai estrear em Los Angeles 2028.

Nem federações nacionais, nem dirigentes, treinadores de alto rendimento, atletas de atla performance, nem ex-atletas que hoje desfilam nas iniciativas da World Aquatics se manifestaram em defesa de um sistema mais justo, mais adequado.

A entrada dos 50 metros nos estilos em Los Angeles muito antes da Olimpíada já trouxe inúmeros movimentos incontestáveis no nosso esporte. As provas entraram nos campeonatos nacionais, regionais, estaduais, criaram-se critérios e possibilidade para o desenvolvimento das mesmas.

Nas bordas de piscina, treinadores revisaram seus programas, ajustaram seus planejamentos e abriram oportunidades para o desenvolvimento de atletas destas provas e distâncias.

Isso sem contar nos retornos, atletas de destaque e que estavam afastado do esporte e decidiram retomar suas carreiras para, quem sabe, mais uma oportunidade de vivenciar algo que sonharam por tanto tempo e agora querem viver esta nova realidade.

Tudo isso é lindo, mas a verdade é nua e crua. Os critérios de classificação dos 50 metros nos estilos para Los Angeles são draconianos e injustos. Somente seis nadadores, somente seis, isso mesmo, das três provas, dois sexos, apenas seis atletas vão poder usar a prova dos 50 metros nos estilos para carimbarem o seu passaporte olímpico.

Nada contra a oportunidade de classificação via Copa do Mundo, achei excelente ideia, mas restringir em seis nadaodres, é patético. Para quem não se deu conta, apenas um exemplo bem claro e específico.

Imagine um nadador ficar em sétimo lugar nos 50m costas na Copa do Mundo em Outubro de 2027. Ele está fora da Olimpíada, mas segue treinando. Na Seletiva Nacional de seu país em Abril ou Maio do ano seguinte ele bate o recorde mundial dos 50m costas mas não faz nenhuma marca A nas outras provas olímpicas e não consegue vaga no revezamento do seu país.

Ou seja, o recordista mundial da prova, fazendo a marca meses antes da Olimpíada não tem o direito de ser Olímpico. Na minha cabeça, e imagino que na sensatez esportiva olímpica, os Jogos são para os melhores do mundo. Não, não são, são para os que fizerem estes esdrúxulos critérios.

O assunto é velho, afinal os critérios foram anunciados em Dezembro do ano passado, mas me voltaram a tona na semana passada. Foram anunciados os critérios de classificação do surfe para os Jogos de Los Angeles. É a terceira vez que a modalidade está na Olimpíada e algumas mudanças desagradaram os maiores surfistas do mundo.

A ISA, International Surf Association, é quem faz os critérios, pois ela que é afiliada ao Comitê Olímpico Internacional. E fez os critérios desvalorizando a classificação da liga profissional e de maior sucesso do esporte, a WSL. Menos mal que o total de surfistas (48, 24 por sexo) se mantém, mas o critério de classificação direta da principal competição do esporte foi minimizado, ou melhor cortado pela metade.

Foram incontáveis os protestos e manifestações dos principais surfistas do mundo. E olha que diferente da natação, os surfistas vivem mesmo é do circuito profissional, a Olimpíada é um momento de satisfação pessoal, muito longe das recompensas financeiras.

Não há garantia alguma de que protestos, reclamações ou pedidos de revisão possam dar certo ou gerar qualquer tipo de resposta ou ação. Mas a mesma coisa pode se dizer do aceitar sem dizer nada.

Uma pena.

Alex Pussieldi, editor chefe Best Swimming e Grupo Swim Channel.

Foto – Eliza Nuestro, Boston University