Merecia mesmo!
Ainda estou em Las Vegas, fui o único jornalista brasileiro a cobrir in-loco a disputa do Enhanced Games, um evento de nove horas de duração num investimento milionário e que movimentou imprensa e redes sociais numa hecatombe de notícias, postagens e publicações nos últimos dias.
Há um ano, quando do lançamento público do projeto eu escrevi o Editorial “Enhanced Games não é esporte” (link), e passados 12 meses pouca coisa mudou, ou quase nada.
Quando afirmo que o grego Kristkian Gkolomeev merecia receber dois milhões de dólares eu ainda acho pouco. Ele praticamente “salvou” o evento e não foi a toa que a prova foi a última das múltiplas disputadas nos esportes da natação, atletismo e levantamento de peso.
Um evento que fica até difícil de calcular o custo, e principalmente por ainda não gerar qualquer espécie de recursos. Preciso descrever para vocês a grandiosidade de tudo o que vi neste dia que ali passei.
O custo da arena completo foi de 8 milhões de dólares, só a piscina de quatro raias custou 6 milhões. É, segundo a organização, uma “Arena Modular” que pode e vai ser desmontada para ser montada em qualquer outro lugar. Um telão gigante redondo, novidade que ficou top ao fundo do evento, mais dois telões enormes retangulares um de cada lado da pisdcina.
Arquibancadas de um lado, suites e camarotes do outro. Nada de ingressos, apenas convidados. Até os jornalistas eram selecionados, tivemos casos de alguns que tiveram credenciais negadas. Havia ali umas 2.500 pessoas por baixo.
A estrutura belíssima oferecia comida de altissima qualidade, bebida a vontade, banheiros químicos instalados, estações de recarga de celular. Era um desfile de convidados e muitos, mas muitos influencers. Muitos mesmo!
Com certeza está aí a razão da inundação de postagens nas diversas plataformas digitais do evento. Tudo isso com transmissão aberta e gratuita no YouTube, Roku e Rumble. A ideia era e sempre foi compartilhar.
Uma das principais conclusões que o Enhanced Games nos provou é que qualquer pessoa com muito dinheiro faz algo se tornar notícia, se tornar grande e relevante. Na ponta do lápis, não só pelos resultados, mas esportivamente o que se viu neste dia é muito pouco, ou muito menos do que a dimensão que se deu na sua promoção e divulgação.
A proposta do Enhanced Games também é difusa. Promove e vende uma imagem que no fundo é outra. O projeto dos “múltiplos” recordistas mundiais se tornou em apenas um, e na última disputa. Porque isso tudo merece este espaço? Pelo dinheiro investido.
O Projeto Enhanced Games iniciou em 2024 e o custo operacional foi de 4,7 miilhões de dólares. No ano passado esta conta subiu para 26,7 milhões de dólares. Imagina o que vai ainda custar em 2026. Vamos lembrar que dezenas de atletas, quase 50, estiveram confinados por meses num restort de alto padrão em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos treinando e sendo “preparados”.
A partir de Março, e com dificuldades enormes, por conta da guerra USA e Irã, iniciaram os chamados protocolos. Atletas passaram a ser testados diariamente, recebiam doses múltiplas de suplementos e medicação. De acordo com o trabalho científico, tudo aprovado pela FDA, Food and Drugs Administration, ou seja, todas as drogas que os atletas receberam podem ser adquiridas em farmácias. São substâncias proibidas pelas regras da WADA, mas, podem e são, consumidas pela população em geral.
O pacote do protocolo incluia Testosterona e Esteróides Anabólicos para aumento de massa muscular, Hormônio de Crescimento para o reparo das fibras, Eritropoietina para incremento das células vermelhas, Meldonium para o aumento de endurance, e Modafenil com Aderall para manter o foco e redução de fadiga.
Importante destacar que nenhum outro tipo de substância estava autorizada em ser ingerida. Lembre-se que tudo faz parte de um protocolo que vai ser vendido, o grande objetivo de tudo isso. Dá até para citar que teve um nadador, que entusiasmado pelo projeto e a possibilidade financeira iniciou, por conta própria uma ingestão de outras drogas, foi afastado e advertido pela comissão médica.
Atletas tem fisiologia diferente. Alguns cresceram muito, outros nem tanto. Alguns “secaram” mais que os outros, mas todos tiveram visível mudança. Um relato apontava que James Magnussen chegou a 1300 de Testosterona, para quem é da ciência médica sabe que se trata de um “super homem”, os resultados entretanto provaram outra coisa.
A grande maioria dos resultados foram patéticos. São poucos os resultados realmente expressivos em se tratando de “recordes mundiais” como era a proposta, ou pelo menos a propaganda do projeto.
Se você analisar um a um, são poucos, ou quase nenhum atleta que ali estava se encontrava no melhor de sua forma e/ou carreira. Na natação então, eram na sua grande maioria aposentados.
O brasileiro Felipe Lima completou 41 anos em Abril. Não treinava natação desde 2022. A participação no projeto foi em busca de um rendimento para sua família, apenas isso. E lhe rendeu bons frutos. Fora o salário que recebeu e não é divulgado, nas duas provas que participou ganhou 250 mil dólares, por um segundo lugar nos 50m peito e um terceiro nos 100m peito.
Este aspecto precisa ser evidenciado. Como se trata de um protocolo científico planejado e estruturado, os atletas tiveram o que há de melhor em todos os aspectos. Não é apenas viajar com toda família para o Training Camp e em primeira classe, mas se submeter a um tratamento de ingestão de remédios e substâncias com a maior tecnologia e supervisão que se pode imaginar.
Assim, por mais que o esporte real possa parecer ter sido maculado, estes 50 atletas deixaram o projeto inicial Enhanced Games com rendimentos muito acima do que acumularam em todas as suas carreiras.
Kristian Gkolomeev ganhou um milhão de dólares no ano passado pelos seus 21.89, agora mais um milhão de dólares pelo 21.81. São dois milhões de dólares em pouco mais de 14 meses. Nenhum outro nadador do mundo chegou perto disso, nenhum.
Chega a ser estupidez pensar que este projeto pode afetar o esporte olímpico. Meros 50 atletas foram contemplados num universo de milhões de atletas pelo planeta. Mas o que se precisa apurar é como se conseguiu dar tanto dinheiro para este tipo de projeto.
Enhanced Games entrou no mês passado na Bolsa de New York. É um negócio grande, bilionário mesmo. A avaliação de valor é de 1,2 bilhões de dólares. É totalmente o contrário da Liga Internacional de Natação, a falecida ISL que deixou dezenas de atletas a ver navios e dívidas em todo planeta. Enhanced Games é uma empresa e que visa lucro e que não vende estes “recordes”, e sim o protocolo.
Pessoas grandes estão por trás disso. Aaron D’Souza, Peter Thiel, Christian Angermayer, até Donald Trump Jr. que não apareceu pois casou neste final de semana. São todos de uma elite que comanda o mundo atual. Ainda tem investimento do Príncipe saudita Khaled Ben Alwaleed Al-Saud.
Na transmissão do evento, o comentarista era Bryan Johnson, outro multimilionário do business da saúde e um projeto que ele chama de “Don’t Die”, uma comunidade que, bombada por tratamentos e suplementos, aumenta a qualidade e tempo de vida das pessoas.
É isso que o Enhanced Games quer. Os super homens bombados pode ser você, um simples mortal. Qualquer pessoa pode bater um recorde mundial e ter mais tempo de vida, mais saúde.
O projeto todo era este, e continua sendo. A ideia, entretanto, era de múltiplos “recordes mundiais” que não aconteceram. Até o site Polymarket, outra bobagem bastante difundida por esta nova elite mundial, previa uma chance de 5 ou mais recordes mundiais em 48%.
Assim fica fácil entender a torcida entusiasmada do bilionário Max Martin, o CEO do Enhanced Games, ao lado da piscina na prova que fechou o evento. Depois num discurso emocionado garantia “isso é apenas o início”. Ainda rolou uma cena, no mínimo grotesca, ao reverenciar Gkolomeev na cerimônia de premiação, mas ainda ficar de joelhos explicava bem o que estávamos assistindo.
O grego salvou o evento! Enhanced Games vai continuar, vai seguir despejando dinheiro em busca de você, não dos atletas, de você que está em busca de “uma vida melhor, mais saudável, e quer viver mais”. O Enhanced Games sobreviveu, as vendas começaram e qualquer um pode gastar algumas centenas de dólares para entrar no protocolo.
O esporte não vai ser afetado, nem é o propósito do projeto. A repercussão de tudo que se viu ontem foi apenas financeira, é a única coisa que se fala. Nem era intenção de todo show e os resultados ainda ajudaram a mostrar o real propósito de tudo isso. Get Enhanced!
E Kristian Gkolomeev merece muito, merece pelo menos uns dois milhões de dólares. O salvador do projeto.
Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming e Grupo Swim Channel


