Das maiores lições que aprendi sobre a natação americana quando aqui cheguei em 1999 é que eles transformaram este esporte numa modalidade coletiva. Parece estranho, mas é algo cultural, desenvolvido desde a base, seja nos clubes, seguindo pelo high school, bastante evidenciado no fantástico sistema universitário do NCAA,e se consagra no USA National Team.

Lá de baixo, se aprende o quanto é importante trabalhar e pensar em equipe, incentivar o companheiro da raia ao lado no meio de uma série, torcer durante as provas dos colegas, fazer a contagem de voltas durante as provas de fundo. Coisas simples, mas muito engajadas e incorporadas. Tudo isso, em todos os níveis, até o alto rendimento.

Isso é cultura, e funciona! Quem já foi numa competição internacional, e passa pela barraquinha da Seleção Americana vê que lá está tudo escrito e determinado. Horário para isso, para aquilo, quem nada, quem solta, e o resto todo, torce! Ninguém manda nadador para arquibancada torcer, eles já sabem que DEVEM fazer isso, é cultura.

Fazer parte do Team USA é o sonho de milhares de nadadores. É outra coisa que existe na tal cultura americana, todo mundo acha que pode conseguir isso. E todos, uns mais, outros menos, tentam ou sonham com isso. Os que conseguem são privilegiados com um sistema muito organizado, planejado e enriquecedor neste sentimento patriótico que todo americano tem.

Michael Andrew é um dos mais talentosos nadadores que a natação americana já produziu. Ninguém nunca bateu tanto recorde nas categorias menores como ele, são mais de 100!

Filho de pais sul-africanos que imigraram para os Estados Unidos, Michael foi “criado em casa”, literalmente. Nunca foi a escola, nunca conheceu um professor, nunca fez parte de um clube, nunca conheceu um treinador. Esta função tem acumulada pelos pais Peter e Tina.

Aos 14 anos, o já vitorioso e promissor nadador anunciava que estava se profissionalizando. Uma empresa de suplementos anunciava um patrocínio que tornava Michel no mais jovem nadador profissional da história da natação americana.

A impressão inicial era de um “pai entusiasmado” que acumulava esta função de técnico e agente. Com um programa “revolucionário” de treinamento, nadando em casa, um par de raias de 25 jardas no fundo do quintal, Michael seguia batendo recordes e mais recordes.

Muita gente pensa que o sistema de treinamento foi criado pelo pai/treinador Peter Andrew. Longe disso, Peter foi nadador na juventude na África do Sul, sem qualquer especialização na esfera do treinamento. A mãe Tina também foi atleta, disputou uma versão do “Gladiators” da TV britânica.

O programa USRPT, Ultra Short Race Pace Training, foi desenvolvido pelo Professor e Doutor Brent Rushall da Universidade de San Diego. O treinamento é baseado em constante repetições em alta intensidade sempre focando no tempo a ser atingido. A série termina quando você deixa de atingir tal meta.

Peter Andrew não criou isso, apenas aplicou no seu filho e virou uma espécie de embaixador do programa. Até tentou, sem sucesso, fazer outros nadadores. Nem a filha, nem quem foi treinar com Peter teve qualquer resultado.

Muito mais que o sistema, o segredo sempre foi Michael Andrew.

Ele é muito talentoso, versátil, rápido!

Depois de fazer muito sucesso na Seletiva Olímpica Americana, se classificando em três provas (50 livre, 100 peito e 200 medley), batendo dois recordes Americanos nos 100 peito, Michael Andrew ganhou as manchetes esportivas nesta semana, mas, por outras razões.

A matéria publicada no site SwimSwam que fala da sua decisão de não se vacinar para os Jogos Olímpicos já tem mais de 700 comentários. A grande maioria negativos. Ele nunca foi muito popular nestes foruns de internet, mas desta vez o assunto ganhou dimensões bem além do esporte.

O jornal USA Today publicou um artigo que chama ele de “egoísta” e ainda diz que sua decisão coloca todo o time americano em risco. Por mais que você seja a favor ou contra as vacinas, precisamos reconhecer que estamos num momento diferente.

A Pandemia é mundial e o esforço e sacrifício que o Japão está fazendo e fará para receber os Jogos Olímpicos é digno de todo reconhecimento. Sabendo da forma como o virus de transmite realizar um evento de mais de 10 mil pessoas, vindas de mais de 200 países do mundo, num investimento de 15 bilhões de dólares e que nem o público japonês será capaz de assistir, seria este o comportamento adequado? Participar da Olimpíada de Tóquio não será um direito, é um privilégio, da vida!

Quando Michael Andrew revelou em entrevista coletiva que não havia se vacinado e nem iria se vacinar ele indicou que “era algo de último instante” e que faltando poucos dias “não iria colocar nada em seu corpo que pudesse afetar o seu desempenho”.

Sem entrar no mérito de concordar ou discordar, Michael Andrew mentiu, mais de uma vez. Primeiro que a vacinação na Califórnia, onde ele treina e vive desde 2019 liberou toda a vacinação para pessoas acima dos 16 anos desde o dia 15 de abril. Isso quer dizer 59 dias antes da Seletiva Olímpica Americana e 93 dias antes da natação em Tóquio.

Em janeiro, em um PodCast com o treinador australiano Brett Hawke, Michael Andrew revelou que já havia contraído e vírus e até mencionou: “como eu já peguei, não corro mais risco”. O assunto Coronavírus ainda rendeu e ele indicou que não queria criar teorias conspiratórias, mas chegou a comparar a Pandemia com o seu sistema de treinamento:
“…isso é igual ao nosso sistema de treinamento, não precisa ser todos na mesma direção, somente porque todos estão numa linha, não precisamos fazer a mesma forma de tratamento”.

Michael Andrew foi direto e sem rodeios, o negacionismo ficou ainda mais evidente quando citou que já estava sendo “medicado” pela mãe, Tina, que não é médica, pelo remédio Ivermeticina.

O anúncio da recusa pela vacina não foi nada bom para a Seleção Americana de Natação. Criou um ambiente nada agradável e na coletiva dos treinadores, a primeira pergunta para o head coach masculino Dave Duerden não podia ser outra. A resposta, extremamente evasiva, mostrou a dimensão e o mal-estar que tudo isso se criou: “Muito mais do que vacinado ou não vacinado, o importante são ações e atitudes da equipe”.

O Team USA, sonho de todo nadador americano, sempre primou pelo trabalho e espírito em equipe. Michael Andrew, mesmo sem nunca ter ido a escolar presencial, ou a universidade, e poder se educar sem a influência ou direção de seus pais, pelo menos pôde usufruir do que representa a magnitude da Seleção Americana.

Em 2015, ele estava no Mundial Júnior, em 2016 no Mundial de Curta com a Seleção Principal, em 2017 no Mundial Júnior, em 2018 no Pan Pacífico, em 2019 no Mundial de Gwangju. Nem assim ele foi capaz de entender o que representa estar nesta equipe onde os valores e as individualidades se curvam ao espírito maior do que é e representa o Team USA.

Michael Andrew vai ser olímpico, pode até ser campeão ou medalhista em Tóquio, mas a lição que era para ter sido aprendida ficou para trás. Que pena!

Por Alex Pussieldi, editor chefe Best Swimming

15 respostas
  1. Erickson
    Erickson says:

    Sem entrar em muito “mi mi mi”..
    Bom texto Coach! Temos de respeitar as decisões de cada um… Mas também ter coragem para assumir as consequências no final. Mas que fica “marcado” ele fica.
    Abraço Coach.
    Lisboa, Portugal.

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  2. Jonas
    Jonas says:

    Concordo com o texto do Coach em relação a lição não aprendida, porém acredito que grande desse comportamento se deve as influências que seus pais exerceram, que condicionaram ele desde pequeno com uma educação restrita dentro de casa e menor grau de sociabilidade. Com uma criação dessa, depois de mais velho, fica muito mais difícil de mudar a forma de pensar e agir.

    Responder
  3. Guilherme Freitas
    Guilherme Freitas says:

    Pode ter talento, mas é um egoísta, idiota e ignorante. E lamentável ver alguns comentários aqui negacionistas. O que essa gente tem na cabeça?

    Responder
  4. Hendrix Pontes
    Hendrix Pontes says:

    Texto sensacional coach, nunca na historia o senso de coletividade foi tao essencial para a humanidade, e ao mesmo tempo essa urgencia infelizmente demonstra que boa parte da raca humana ainda tem muito o que evoluir nesse aspecto.

    Responder
  5. Matheus Ribeiro
    Matheus Ribeiro says:

    Eu achava q a America era a “land of the free”
    e o q aconteceu com o “meu corpo, minhas regras”?

    ninguem tem que injetar nada no corpo q nao concorde por pressoes externas

    Responder
  6. Alexandre
    Alexandre says:

    Boa tarde!
    Se tomar a vacina tem uma eficácia altíssima (principalmente as vacinas nos EUA) contra a infecção do vírus, q a pouco tempo matava mais de 5000 por dia nos EUA, taxa q só diminuiu graças a vacina.

    Vc abdicar disso com essa justificativa de não colocar nada no seu corpo preocupado com seu desempenho é não ter empatia alguma com algo q parou o mundo e continua matando milhares de pessoas todos os dias.
    Lamentável.

    Responder
  7. SANDRO
    SANDRO says:

    Boa Tarde Coach.
    Tenho a esperança de que haja realmente uma democracia de opiniões e que, desta vez, meu comentário não seja bloqueado ou censurado.
    Comentários chamando Michael Andrew de imbecil, idiota, estão sendo publicados, parece que jogar pedra é mais fácil do que tentar entender o ponto de vista dele.
    Considero que Michael Andrew tem sofrido perseguição, preconceito e discriminação por pensar diferente.
    Michael Andrew é um bom menino, bom companheiro de equipe, dedicado, focado, bom filho, e engajado em causas sociais.
    Michael Andrew tem tantos positivos, mas imfelizmente está sendo perseguido até por pessoas que não fizeram 1% do que ele já fez em prol do próximo.
    Michael Andrew desde muito novo sempre foi preocupado em se dedicar à caridade.
    Andrew está fortemente envolvido com causas de caridade desde o início de sua carreira profissional. Mais notavelmente, Andrew fez quatro viagens a Rosarito, no México, com a “Hope Sports” para construir casas para famílias de baixa renda.
    Estranho é que muitos criticam Michael Andrew que não é alcoólatra, drogado ou dopado mas apoiam Sha’Carri Richardson que competiu dopada sob efeito de maconha, inclusive tem até congressista apoiando aida dela para Tóquio mesmo sendo pega no antidoping.
    Acontece que estimular atletas a usarem maconha é muito mais prejudicial à Saúde Publica em geral do que Michael Andrew que está sendo muito mais criticado do que a corredora usuária de maconha.
    Um atleta usar maconha estimula seus fãs e seguidores a usar também e efeito da maconha no organismo provoca vários problemas não só para o indivíduo mas também para outras pessoas e para a saúde publica, enfim, para coletividade.
    O uso de maconha provoca:
    -Psicoses (como esquizofrenia)
    -Surto psicótico
    -Problemas de memória, podendo chegar até ao Alzheimer
    -Problemas de aprendizado
    -Problemas na coordenação motora
    -Ansiedade
    -Depressão
    -Transtornos do humor
    -Câncer de pulmão
    -Câncer de laringe
    -Tosse seca prolongada
    -Taquicardia
    -Ataque cardíaco
    -Acidente vascular cerebral AVC
    -Aumento de acidentes de trânsito por dirigir dopado.
    -Aumento da violência doméstica por surtos psicóticos.

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    • Hendrix Pontes
      Hendrix Pontes says:

      Sandro,
      Qual a relacao entre acoes sociais do nadador, ou uso de maconha por outra atleta ja desclassificada dos Jogos com a atitude de descaso e desrespeito do atleta ao senso de coletividade brilhantemente descrito pelo coach no post? Em que aspecto uma atitude correta de uma pessoa anula um erro grave da mesma, ou erros de terceiros justificam ou legitimam erros de alguem? O nome disse eh falacia logica ou falsa equivalencia do tipo “Tu quoque”, sugiro que pesquise sobre o assunto, e perceba assim o quanto seu uso eh antigo e condenavel.
      https://en.wikipedia.org/wiki/Tu_quoque

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      • SANDRO
        SANDRO says:

        Tenho ouvido e lido pessoas criticando a ida de Michael Andrew a Tóquio, porém, apoiando e incentivando a ida Sha’Carri Richardson mesmo com uso de maconha a Tóquio e acho isso um paradoxo, só escrevi o que tenho ouvido e presenciado, não tem nada de falácia nisso.
        Há pessoas que querem Michael Andrew fora de Tóquio e Sha’Carri Richardson em Tóquio, isso é fato, e acho estranho se indignarem com Michael Andrew e mesmo tempo apoiar o uso de maconha por essa atleta, só isso.

        Responder

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