Esta é daquelas histórias onde todo mundo reclama, e todo mundo acha que tem razão. No final das contas, só se chegará a um resultado positivo se for selada a paz.

O problema é antigo, a situação financeira da CBDA, a falta e incorreta de prestação de contas das gestões anteriores criaram um impedimento no recebimento de verbas federais. De acordo com os processos em aberto e que o Blog teve acesso, existem contas em aberto desde 2012, época em que a CBDA tinha um patrocínio mensal de mais de 2 milhões de reais.

Estas prestações de conta irregulares não terminaram com a gestão Coaracy Nunes, entre os processos em aberto ainda existem despesas de 2017, já pertencentes a gestão de Miguel Cagnoni.

Sem poder receber verbas federais, todo dinheiro que é repassado a CBDA vem via COB, que passou a ter uma função de fiador em todo este processo. Como fiador, o COB analisa, ajusta, aprova ou rejeita os projetos e iniciativas da CBDA.

Esta semana, a crise atingiu o ápice no conflito de narrativas. Mesmo com os bons resultados alcançados em Tóquio, três medalhas e o melhor resultado da história da natação olímpica, as duas entidades ainda degladiam puxando em direções opostas comprometendo a relação institucional.

A mudança de local do Campeonato Sul-Americano Juvenil dos Esportes Aquáticos apenas incrementou este problema. A competição estava marcada para Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, porém por conta de obras não concluídas na piscina local, o evento foi transferido para Lima, no Perú. O planejamento de viagem, envolvendo uma delegação enorme para os cinco esportes aquáticos (162 pessoas) teve um incremento que estava completamente fora do projeto que estava pronto desde o ano passado.

Para atender a demanda do novo total do projeto, o COB solicitou um corte na delegação, reduzindo o número de participantes da equipe, condição que foi negada pela CBDA. Assim, não restou ao COB, até mesmo para atender a seu orçamento anual, cortar outras ações da CBDA, entre elas o treinamento de preparação do nado artístico além da viagem da Copa Pacífico de Águas Abertas.

As atletas do nado artístico junto com seus familiares iniciaram um processo de mobilização criando uma vaquinha online para arrecadação de 106 mil reais, verba que seria suficiente para bancar o treinamento pré-Sul-Americano. A publicação do movimento e até mesmo a crítica pública das atletas gerou uma nota oficial do COB que reproduzo abaixo:

 

Nota oficial – Campeonato Sul-americano Juvenil e Júnior de Esportes Aquáticos

A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) foi uma das entidades que mais teve investimentos realizados pelo COB em suas modalidades no ano de 2021, num total de R$ 10.3 milhões.

O corte no orçamento dos treinamentos finais das seleções brasileiras Juvenil e Júnior de nado artístico para o Campeonato Sul-americano Júnior de Esportes Aquáticos, em Lima, Peru, aconteceu por conta de erros significativos no planejamento técnico-orçamentário apresentado pela CBDA, que incluem estimativas de custo irreais, indefinições nos projetos, atrasos na entrega de relatórios e informações, erros de procedimento de inscrição de atletas em competições, entre outros.

Ao longo dos últimos anos, o COB tem trabalhado incansavelmente para corrigir as falhas de gestão esportiva da CBDA e minimizar os impactos para os atletas e treinadores.

Em ofício datado do dia 6 de outubro, o COB alertou a CBDA sobre a falha na previsão orçamentária de R$ 330 mil para o envio da delegação de 162 integrantes para o Campeonato Sul-Americano de Desportos Aquáticos em Lima, no Peru, recomendando que a entidade buscasse uma solução para adequação dos custos de forma a viabilizar as ações prioritárias. Na ocasião, a CBDA não foi capaz de apresentar uma proposta para solucionar a questão.

Vale ressaltar que a CBDA está impedida de receber repasses dos recursos das Loterias em virtude do atraso no envio de documentos legais e falhas de prestação de contas, o que faz com que o COB tenha que mobilizar seus funcionários e executar diretamente os projetos em prol dos atletas e equipes das modalidades.

Diferentemente de outras Confederações que passaram por momentos de impedimento ou dificuldades financeiras, a CBDA não trouxe soluções para a gestão esportiva de suas modalidades, colocando sobre o COB a responsabilidade exclusiva do custeio das necessidades de seus atletas, não tendo gerado qualquer receita própria nos últimos anos.

Especificamente nas categorias Juvenil e Júnior do nado artístico, o COB investiu, em 2021, cerca de R$ 400 mil em oito períodos de treinamentos.

Infelizmente a falta de planejamento da CBDA coloca em risco não apenas os projetos do nado artístico como outras ações e eventos de suas modalidades previstos até o final deste ano.

Desde que assumiu, a atual gestão do COB tem como marcas o rigoroso respeito ao orçamento, o cumprimento dos prazos e políticas internas e a intransigente defesa dos pilares de meritocracia, transparência, austeridade, competência e excelência.

Lamentavelmente a CBDA parece não ter entendido tais conceitos.

 

A CBDA também devolveu com outra nota oficial apresentando seus argumentos:

NOTA OFICIAL – TREINAMENTO DA SELEÇÃO DE NADO ARTÍSTICO PARA O SUL-AMERICANO JUVENIL E JUNIOR

A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos vem, por meio desta nota, esclarecer alguns pontos à comunidade aquática e à imprensa sobre o cancelamento do período de treinos da seleção brasileira juvenil de Nado Artístico que deveria ter começado no fim da última semana, no Rio de Janeiro.

A situação financeira da CBDA é de conhecimento público e, por conta de falhas de antigas gestões entre 2011 e 2017, a entidade não pode ter acesso à verba das Loterias que é de direito previsto em lei. Sendo assim, o Comitê Olímpico do Brasil, desempenhando seu papel, executa as ações dos esportes aquáticos do Brasil com o dinheiro que é da CBDA.

Nos últimos dois anos, a CBDA vem trabalhando – com 15 voluntários e 9 funcionários contratados – para que essas falhas das antigas gestões sejam sanadas. Enquanto o problema não é resolvido pela Justiça, a CBDA conta sim com a ajuda de poucos das dezenas de funcionários do Comitê Olímpico para que o esporte aquático continue tendo protagonismo no cenário esportivo.

A parceria entre CBDA e COB para a utilização desta verba vem dando bastante certo ao longo dos últimos anos. Inclusive, com o notório reconhecimento do próprio Comitê Olímpico com a avaliação do Programa de Gestão, Ética e Transparência, onde a CBDA saltou da 31ª para 21ª colocação no programa com nota de 7,87. A CBDA, inclusive, foi eleita a Confederação mais transparente do Brasil (link).

Contextualizada a parceria, segue a situação específica do Campeonato Sul-Americano. O planejamento de utilização da verba das Loterias – verba essa de direito da CBDA e apenas executada pelo COB – foi feito em novembro de 2020, em um momento de incertezas até mesmo da principal competição do ano de 2021: os Jogos Olímpicos. Para o Campeonato Sul-Americano Juvenil e Junior, o planejamento foi feito com base nas poucas informações que a CBDA possuía naquele momento.

Em setembro deste ano, a CONSANAT alterou o local da competição: de Santa Cruz de La Sierra para Lima. A mudança fez com que o planejamento feito quase um ano atrás sofresse ainda mais alterações. O preço das passagens aéreas, por exemplo, teve um aumento significativo e impactou na verba que havia sido separada para esta competição.

Com todo esse problema, a CBDA se viu obrigada a recorrer ao Comitê Olímpico do Brasil para que as seleções juvenis e juniores das cinco modalidades não ficassem descobertas na principal competição desta categoria nesta temporada. Do valor não previsto: R$ 330 mil, R$ 116 foram utilizados recursos da verba de Loterias da própria CBDA, restando a quantia de R$ 214 para ser completada.

O Comitê Olímpico, então, optou por não completar a ação e cancelar, assim, o treinamento de Nado Artístico e a ida da equipe brasileira para a Copa Pacífico de Maratonas Aquáticas. Vale lembrar que o treinamento em conjunto para o Nado Artístico é fundamental para que as atletas tenham a sincronia de movimentos necessária para participar das provas. O cancelamento do treinamento aconteceu um dia antes do início.

Diante dos acontecimentos no mundo de 2020 até hoje, podemos dizer que o planejamento foi feito com o que a CBDA tinha em mãos. Lamentavelmente, a CBDA, ainda, não pode executar suas ações e, por isso, espera que o COB reveja sua decisão, se conecte com a realidade das confederações nacionais e que possamos manter nossa parceria que vem gerando grandes frutos para o esporte brasileiro.

 

As narrativas são opostas e, por enquanto, o acordo parece distante. De qualquer forma, o que se busca é a sustentabilidade do esporte aquático no país, até mesmo porque fora o evento em questão, a entidade tem problemas até mesmo de pagamento de seus funcionários e funcionamento da mesma. Uma das opções, já em andamento, é a responsabilidade fiscal e civil pelas irregularidades financeiras a gestões anteriores e seus respectivos responsáveis.

Por incrível que possa parecer, o Sul-Americano, Copa Pacífico e todas as verbas de competições são de muito mais fáceis solução do que a sustentabilidade da CBDA. Este talvez seja o grande desafio do momento, pois ficar adiando o problema não será a resposta. Ou se busca a opção da entidade ter direito a verba para o uso dentro da sua estrutura, ou se busca um patrocinador para o custeio sem qualquer tipo de restrição.

O problema é grande, mas também é grande o potencial e valor do esporte aquático no país, como também deve ser grande a vontade de todas a partes de chegar a um acordo. Como foi dito lá em cima no título do editorial, está na hora do cachimbo da paz.

Por Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming. 

 

O jornalista Demétrio Vecchioli também publicou um post importante em seu blog Olhar Olímpico sobre o caso:

https://www.uol.com.br/esporte/colunas/olhar-olimpico/2021/10/18/atletas-fazem-vaquinha-para-treinar-e-criticam-cob-que-ataca-cbda.htm

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