Best Swimming convidou Alberto Klar para escrever um texto em homenagem a um de seus mais destacados nadadores na sua passagem pelo Esporte Clube Pinheiros, Eduardo Scavone Schiesari, que nos deixou as melhores recordações possíveis.
Meu Malvado Favorito
Por Alberto Klar
Olá, Francês… onde quer que você esteja agora.
Por que teve que ser assim?
Fica difícil aceitar. Difícil entender. Ainda mais quando a sensação é de que havia tanto por viver, tanto por compartilhar, tanta gente ainda para você conhecer — e encantar — com essa intensidade única que sempre foi sua marca.
Você viveu como poucos. Até no improvável — como aquele fusca oxidado, que você defendia com orgulho como se fosse tendência mundial. E, do seu jeito, era mesmo. Porque tudo em você tinha personalidade.
Eu vou me lembrar de você, Francês.
E vou te levar comigo em duas histórias — duas entre tantas — que explicam por que você se tornou, para mim, o meu malvado favorito. A primeira foi em um Troféu Brasil, no Corinthians. Estávamos em uma situação difícil contra o Minas Tênis Clube. Precisávamos de resultados quase perfeitos. E veio o 4×200 livre. Coloquei você para abrir. Você já era um nadador de 1:52, 1:53… sabíamos da sua capacidade. Mas você fez algo que ninguém esperava. Nadou “devagar”. Dois minutos. Controlando. Segurando. Seus companheiros, indignados, se incendiaram. Se superaram. E venceram o revezamento.
Missão cumprida.
Fui falar com você depois, pronto para dar uma bronca. E você, com aquele sorriso de canto de boca, me respondeu:
“Eu nadei devagar mesmo. Eu sabia que eles iam reagir.” Naquele momento, eu não sabia se brigava ou se ria.
Mas aprendi ali: com você, nunca havia garantia. Só surpresa.
A segunda história foi no treino. Eu fazia testes de lactato — método científico, preciso. A regra era clara: série em A2, controle absoluto, objetivo bem definido. Esperava algo próximo de 4 mmol. Você começou a série. Os tempos vieram… fortes demais. Desconfiei. Parei você antes do fim. Coletamos o sangue. Resultado: 12 mmol.
Doze!
Eu te olhei, sem entender: “Por que você fez isso?” E você respondeu, simples, direto: “Porque achei que dava para fazer melhor.” Ali estava você. Sempre ouvindo. Sempre entendendo. Mas, quando não concordava… fazia do seu jeito. E fazia mais. Sempre mais.
Essas histórias dizem muito sobre você. E sobre o que você me ensinou. Você me obrigou a evoluir — como treinador, como pessoa. Me fez entender que nem sempre a regra é suficiente. Que existem atletas que vão além do protocolo. Que desafiam o sistema. Que obrigam o sistema a crescer.
Se eu tivesse seguido apenas o “manual”, talvez nunca tivéssemos vivido resultados como aquele 1:52, há mais de 30 anos. Nem o título brasileiro nos 400 medley — prova que, ironicamente, nem era a sua principal.
Você era assim. Intenso. Imprevisível. Genial à sua maneira. E hoje… o que fica é saudade.
Saudade dos treinos. Das discussões. Do silêncio seguido daquele sorriso irônico — aquele mesmo que vi recentemente em uma foto e que me trouxe tudo de volta em um instante. “Deixa comigo”, você dizia. E, de alguma forma, eu sei que ainda está tudo com você.
Fique em paz, meu querido. Continue contando essas histórias — e criando novas — aí de cima.
Com carinho,
do seu treinador.
Eu te amo.
Alberto


