Act Rodchenkov é uma lei bi-partidária americana que vinha sendo discutida e foi aprovada por unanimidade pelo Congresso e pela Câmara dos Deputados nos Estados Unidos sendo promulgada pelo Presidente Donald Trump na sexta-feira. A lei que leva o nome do delator russo Grigory Rodchenkov basicamente criminaliza o doping no esporte.

Criminalização do doping não é coisa nova, Alemanha, Áustria, Austrália, França, Itália, Quênia e alguns outros países já adotam penas dentro de seu sistema para atletas e pessoas envolvidos no uso das substâncias proibidas, entretanto, a Lei Rodchenkov traz um elemento novo, é uma lei que cruza fronteiras.

O Act Rodchenkov pode punir com até 10 anos de prisão, multas até 250 mil dólares no caso de um atleta ou até 1 milhão de dólares para múltiplos envolvidos, e se aplica a todas as competições disputadas no território americano ou fora dele, desde que tenham atletas americanos participando, patrocinadores americanos envolvidos ou até mesmo transmissão de televisão para os Estados Unidos.

Este fator de penalizar atletas, países ou entidades em disputas internacionais ocorridas no exterior tem recebido inúmeras críticas antes mesmo da lei ser aprovada. A WADA foi a primeira a se manifestar indicando que tal regulamentação pode afetar as relações internacionais do esporte já que sua ação de controle hoje já se aplica em 190 países.

O pior desta lei, entretanto, é o fato dela ter deixado de fora as ligas profissionais americanas e os torneios universitários dos Estados Unidos. Isso mesmo, atletas do futebol americano da NFL, os jogadores de hóquei da NHL, os jogadores de beisebol da MLB, os jogadores de basquete da NBA e todos os atletas-estudantes do NCAA, mesmo que testem positivo para qualquer substância não serão penalizados pelo Act Rodchenkov.

O argumento dos legisladores ao deixar estas entidades de fora da lei foi de que “elas já possuem seus próprios regulamentos de controle e penalização de doping”. Você pode não acreditar, mas isso é verdade.

Inspirada no russo Grigory Rodchenkov, a lei é uma forma da política americana protestar pela “ineficiência da WADA” em especial aos escândalos do esporte russo. Rodchenkov fez parte por anos da RUSADA, a agência de controle anti-dopagem da Rússia e contribuiu de forma ostensiva no processo de encobertamente e falsificação de resultados no doping russo.

Depois dos Jogos de Inverno de 2014, em Sochi, Rodchenkov disse que estava sendo perseguido e fugiu da Rússia imigrando para os Estados Unidos onde vive em segurança protegido pelo FBI. Na época, Rodchenkov revelou todos os segredos e falcatruas dos russos nos resultados de doping num escândalo que virou o premiado documentário “Icarus” vencedor do Oscar em 2018.

O delator Rodchenkov é, e sempre foi um criminoso. Este ano publicou um livro: ” The Rodchenkov Affair”, onde detalha o período em que trabalhou, manipulou, falsificou e destruiu amostras e resultados de atletas da Rússia. Também descreve que no final de sua carreira como “criminoso do doping russo” que passou a ser perseguido e seria julgado na Rússia, antes de fugir para os Estados Unidos.

Rodchenkov é considerado um criminoso no seu país e vive em local incerto e não conhecido na América. Sua história no doping é suja e nesta semana seu livro foi incluído como um dos finalistas da 32a edição do William Hill Sports Book of The Year e vai receber um prêmio na ordem de 30 mil dólares. No mesmo dia do anúncio, outro concorrente e vencedor do importante prêmio literário, Ian Ridley,  anunciou que recusava a premiação por questões éticas: “como um livro de um criminoso, que cometeu crimes pode estar nesta disputa”.

O Presidente da WADA, o polonês Wihold Banka, foi preciso na sua análise da recente aprovação da Lei Rodchenkov que deixa de fora as ligas profissionais americanas e o sistema NCAA: “Se isso não serve para os Estados Unidos, porque precisa ser imposto ao resto do mundo”.

A verdade é que a luta e o combate ao doping deve ser global e um esforço de todos. Ficar politizando não será a solução.

Rodchenkov é um delator, mas jamais deixará de ser um criminoso, até porque até hoje não pagou por isso. O fato de viver escondido nos Estados Unidos, sob proteção do governo americano, longe de sua família, está longe de uma punição. Se seu documentário e livro foram premiados, ele continua sendo um criminoso e assim deveria ser tratado.

Ter uma lei com seu nome já é absurdo, mas mais absurdo é achar que o doping só acontece aqui, ou acolá e principalmente deixando muita gente de fora desta nova regulamentação.

 

Alex A. Pussieldi, editor chefe da Best Swimming 

Veja aqui os termos completos do Act Rodchenkov:

https://www.congress.gov/bill/116th-congress/senate-bill/259/text?q=%7B%22search%22%3A%5B%22Rodchenkov+Act%22%5D%7D&r=2&s=1

1 responder
  1. ALEXANDRE ALENCAR DA COSTA
    ALEXANDRE ALENCAR DA COSTA says:

    Americanos confirmando a fama de nação mais corrupta do mundo. Somos bebês em relação ao que eles fazem, americanos, russos, chineses. A muito tempo o esporte não é limpo e transparente. Já disse isso Ben Jonson em 1988.
    “Eu fui pego, mas quantos escaparam?”

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