Quando foi apontado para comandar o Comitê Tokyo 2020 em 2014, a ideia era homenagear Yoshiró Mori, um político experiente, muitos anos de prestação de serviços. Mori foi Primeiro Ministro do Japão, Ministro da Construção, Ministro das Relações Exteriores, Ministro da Educação, Deputado, Presidente da Federação Japonesa de Rugby. De formação conservadora, a indicação era uma forma de agradecimento. A prova é de que, ao ser indicado, aos 77 anos, ele reagiu “se eu viver mais seis ou sete anos vai ser sorte”.

Mori, hoje tem 83 anos, e ainda segue no cargo. Balançou bastante na semana passada quando em reunião do Comitê fez as infelizes declarações sexistas e misóginas. Na sua opinião, “mulheres atrasam as reuniões, falam muito”, e mais “gostam de aparecer e tem uma tendência de dividir, jamais agregar”.

Pronto era só o que faltava para ser disparada uma bomba mundial. Foi duramente criticado localmente, nacionalmente e mundialmente. A sempre moderada Governadora de Tóquio Yuriko Koike, a primeira mulher governadora da Capital, considerou a declaração grave, fora de propósito e disruptiva.

Menos de 24 horas depois da declaração, Mori pediu desculpas, mas não foi o suficiente. Foi apedrejado de todas as formas nas redes sociais que ainda pedem a sua saída do cargo.

Para quem é familiarizado com a cultura e a educação no Japão, as declarações de Mori não são surpresa, ainda mais vindas dele. O país sempre foi machista e fazia parte da intenção de sediar os Jogos Olímpicos em iniciar esta mudança nos costumes e estatísticas negativas.

No ranking do Fórum Econômico Mundial da diferença econômica entre homens e mulheres o Japão aparece em 121o lugar entre 153 países. Outra pesquisa nacional feita em 2019, apontou que apenas 5,2% dos executivos do país são mulheres.

Pior ainda foi em 2018 a denúncia de que a Tokyo Medical University e outras universidades que tinham rejeição as mulheres nos seus exames de admissão apontando a tendência feminina de “pedir demissão prematuramente e se dedicar ao casamento e gravidez”.

Este sentimento é nacional, e segue. A Lower House, Câmara dos Deputados do Japão tem apenas 9,9% de seus membros mulheres, o que coloca o país em 167o entre os 190 do ranking feito pela Inter Parlamentary Union.

Por conta disso tudo, em 2003, no ano em que Tóquio foi indicada para receber os Jogos Olímpicos de 2020, o Governo Japonês estabeleceu um projeto de chegar a pelo menos 30% dos cargos importantes para mulheres. Falhou feio.

Yoshiró Mori é sexista, machista, misógino, sempre foi, e continua sendo. O que ficou exposto na semana passada é o que todo mundo que lhe conhece já sabia. O político tem coleção gafes em toda a sua carreira.

Ainda jovem, na sua campanha para deputado, ao chegar a uma cidade quando a população não se aproximou de sua carreata mencionou que “parecia que eu tinha AIDS”. Em outro episódio, ainda em campanha, disse que “quem não for votar por mim, que fique na cama”.

Entre tantas outras, a mais engraçada foi a do seu sofrível inglês na reunião do G8 em Genebra. Ao cumprimentar o Presidente Americano Bill Clinton ao invés do “How are you?”, mandou um “Who are you?”. Clinton respondeu com bom humor, “bem, eu sou o marido da Hillary Clinton”, e Mori completou de volta “me too”.

No esporte, Mori criticou duramente alguns atletas japoneses pelas suas performances nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014. A resposta da comunidade esportiva e dos próprios atletas foi intensa e bem negativa.

Desde as declarações de Mori, e o seu não pedido de demissão, centenas de voluntários já anunciaram que não irão trabalhar nos Jogos. Tentando controlar este movimento, o Comitê Tokyo 2020 administra uma grave crise interna.

O COI, quase sempre híbrido em suas declarações e notas, desta vez foi direto ao ponto. Criticou as falas de Mori, disse que são “inadmissíveis, inaceitáveis” e contrárias as propostas do Comitê Olímpico Internacional.

Desde que assumiu a Presidência do COI, Thomas Bach, comanda a chamada Agenda 2020 e entre as maiores propostas é a igualdade de gêneros. São muitas ações e conquistas desde então.

A multiplicação das provas mistas em diferentes esportes no programa olímpico, a equiparação de distâncias e provas da natação está entre as consequências deste movimento. Tokyo 2020 terá 49% de mulheres, o maior índice em 125 anos de existência do movimento olímpico.

Ainda tem mais, pela primeira vez, o porta-bandeira dos Jogos é recomendado que seja uma dupla, um homem, uma mulher. Desde que iniciou a Agenda 2020, o COI já tem um percentual de 37,5 de mulheres membros, contra 21% do início do projeto.

Em Paris 2024, será a primeira Olimpíada da história onde homens e mulheres irão competir com o mesmo número de participantes. Será histórico, pois foi em Paris em 1900, a primeira vez que mulheres participaram dos Jogos Olímpicos. Eram 22 atletas em apenas dois esportes. Demorou 124 anos para este reparo ser feito.

Com tantos problemas e tantas responsabilidades para tentar organizar uma Olimpíada e uma Paralimpíada em meio a uma Pandemia, o Presidente do Comitê Tokyo 2020 não ajuda nada permanecer em seu cargo, pelo contrário, só atrapalha.

Pede para sair Mori…

Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming

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