Sábado, em Doha, no Catar, com cerca de 300 votos (apenas dois contra), Husain Al-Musallam, 61 anos, natural do Kuwait, foi eleito por aclamação como o novo Presidente da FINA. A eleição e a assembleia da FINA foi híbrida, com 102 países presentes e outros 81 de forma remota, na primeira assembleia da entidade que foi transmitida ao vivo e aberta ao público na internet.

Al-Musallam é um ex-piloto da Kuwait Airways, mas antes disso foi nadador, manager da Seleção do Kuwait, e por décadas tem sido um dos mais destacados dirigentes do esporte asiático. Nestes últimos anos, a frente do Comitê Olímpico da Ásia (OCASIA) promoveu uma verdadeira revolução estrutural na entidade. Quem acompanha o esporte mundial, e não somente os esportes aquáticos, sabe que os asiáticos tem sido o destino da grande maioria dos eventos internacionais. Isso não é por acaso, é um projeto muito bem organizado e planejado.

Na FINA, ele está desde 1996 como membro do Bureau e desde 2017 como Primeiro Vice Presidente. No início, até se chegou a falar em uma possível oposição vinda da Europa, opção totalmente descartada especialmente pela popularidade e influência de Al-Musallam no mundo esportivo.

Conheço o “Captain Husain” desde 2002 quando comecei a trabalhar para a Seleção Nacional do Kuwait. É um dirigente “intenso”, visionário, muito exigente com projetos e intenções de modernizar a FINA, e repito, intenso!

Esta intensidade me faz lembrar uma passagem quando estava no Kuwait comandando a Seleção Nacional em treinamentos. Fui até o seu escritório e reclamava com ele de algumas dificuldades que estava enfrentando. Enquanto ainda falava, ele pega o telefone e liga para uma pessoa. Imediatamente eu paro de falar e ele me pede, continue, estou escutando.

Não preciso descrever que me senti ofendido, eu falando, e ele ao telefone. Porém, não demorou alguns segundos para descobrir que ele, ao mesmo tempo que me ouvia, ao telefone já resolvia o problema. Como eu mencionei antes, ele é intenso!

Existem críticas aos dirigentes da FINA, aos montes, e algumas procedem. Ele entra com uma visão de tentar reformular tudo isso, e já no discurso de sábado, surpreendeu a todos com algumas decisões. A primeira delas, não vai ter salário, nem ajuda de custos, durante todo o seu mandato, mais do que isso, vai cortar, ou melhor, diminuir a ajuda de custo para os dirigentes da FINA que viajam em primeira classe e ficam hospedados em hotéis cinco estrelas, com tudo pago, e ainda recebem uma polpuda ajuda de custo. Ao mesmo tempo, garantiu um aumento de pelo menos 2,4 milhões de dólares aos atletas nos eventos internacionais deste ano. Um belo aumento!

No discurso de Husain Al-Musallam, ele começa com uma forte promessa: “I will not let you down”, basicamente é um “eu não vou decepcioná-los”. Prometeu reformas administrativas, anunciou uma nova comissão de atletas (e vai ter brasileiro neste grupo), além de temas fortes como doping e temas sociais.

Nesta parte ele foi bem incisivo. Reclamou (e com razão) algo que grande parte da imprensa especializada tem feito. Husain Al-Musallam não pode ser presidente da FINA pois o Kuwait nunca teve um atleta medalhista, sequer finalista, em Mundiais ou Olimpíadas. Argumento como este carece de qualquer tipo de racionalidade. Se fosse assim o diretor geral da ONU não poderia ser o português Antonio Guterres ou o diretor geral da OMS jamais seria o etíope Tedros Adhanon.

O mérito de alguém ocupar algum cargo deve ser exclusivamente de seu potencial, seu histórico, jamais da onde ele vem, onde nasceu…

O “no racism” mereceu espaço longo em seu discurso (e vídeo) recebendo grande aplauso dos presentes.

Existe também a história do “co-inspirator #2”. Um processo do FBI de 2015 condenou um dirigente do futebol de Guam, que na sua delação premiada, e em busca de uma diminuição de sua pena, indicou dois nomes aos quais dividia responsabilidade pelo enriquecimento ilícito em verba recebida com ajuda de dois dirigentes do Kuwait. Um, seria Al-Musallam.

O dirigente de Guam foi condenado pela justiça americana em 2017, e jamais qualquer investigação foi aberta oficialmente contra Al-Musallam, embora o caso sempre seja mencionado pela imprensa internacional.

Se há algo que Al-Musallam sempre soube lidar bem foi com dificuldades. No discurso de posse, ainda contou algo que pouca gente (ou quase ninguém) sabia. Durante sua carreira como piloto teve um de seus aviões sequestrados e teve a capacidade de pousar e todas as vidas foram salvas com final feliz para o que poderia ser uma tragédia. Ele usou a história para comparar com o momento atual que estamos vivendo. A Pandemia global e todas as suas dificuldades que nos foram impostas, é um destes momentos que vai ser necessário a visão planejada e equilibrada para encontrarmos a solução para um mundo melhor, em especial nos esportes aquáticos.

Antes mesmo de assumir a Presidência da FINA, Al-Musallam já tinha influência na entidade. Em abril, Cornel Marculescu, o todo poderoso diretor executivo da entidade por 35 anos anunciou a sua aposentadoria. E não foi por acaso. Marculescu sabia que seria o primeiro a ser removido da entidade.

Não há o que contestar do trabalho de Marculescu na FINA, mas em 35 anos no mesmo cargo, a entidade parou no tempo e, em especial, nas suas decisões e preferências pessoais. A mudança era necessária.

E a saída foi a melhor possível. Al-Musallam trouxe um nome incontestável, o americano Brent Nowicki, um advogado de renome internacional e com participação em grandes eventos e em especial no CAS/TAS. Aliás, as primeiras decisões de Al-Musallam foram todas muito estratégicas. Seu primeiro vice é da China, o segundo da Austrália.

O Bureau dividido de forma a contemplar todas as regiões integrando as novas diretrizes da entidade. E para terminar, nada melhor do que dar a Julio Maglione o título de Presidente Honorário “Life time”, afinal, mesmo dentro de todas as iniciativas de gestão moderna e revolucionária, sempre há um espaço para uma boa política.

Os desafios são enormes, vivemos a maior crise em nossos tempos. E Al-Musallam e a FINA precisam negociar ou pelo menos entender o que a ISL ou outros novos empreendimentos venham a ser acrescentados ao mundo aquático.

Conhecendo (e muito bem, o novo presidente), posso garantir que terá sucesso, e sempre intenso.

Coach Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming

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