Quando você estiver lendo este editorial, a nova regulamentação dos atletas universitários americanos já vai estar em vigor. Acabou o amadorismo obrigatório, fim das leis draconianas que impediam os atletas-estudantes de faturar, desde simples anúncios até mesmo premiação em bônus pelas suas próprias conquistas e esforços atléticos. Fim para tudo isso, uma vitória que durou anos de discussão política que a NCAA segurou enquanto pôde.

Mas antes que saiamos todos a comemorar, é bom identificar o quanto de positivo foi isso, e em especial para a natação universitária.

NCAA é uma entidade centenária. National College Athletic Association tem 115 anos, para ser mais exato 111, pois trocou de nome para os atuais NCAA em 1910. É uma das mais fortes instituições esportivas do mundo. Uma entidade que reúne 1.268 entidades universitárias espalhadas nas três divisões oferencendo competições em mais de 30 modalidades esportivas e com aproximadamente 480 mil atletas-estudantes.

O esporte universitário nos Estados Unidos sempre foi amador. Porém, a NCAA não era tão grande, tão forte, tão poderosa. Desde a temporada 2016/2017 ela arrecada mais de 1 bilhão de dólares anuais. É verdade que este valor vem 80% da temporada do basquete masculino da Divisão I, mas há toda uma estrutura muito bem organizada e lucrativa.

O problema é que os atletas-estudantes, no sistema do esporte amador, são, ou eram, proibidos de qualquer benefício que fosse além das condições acadêmicas e de infra-estrutura nos campus universitários. Por melhor que fosse o atleta, mais títulos, mais recordes, o máximo que ele poderia ter era uma bolsa integral, viver e comer de graça no campus, ter toda a assistência médica, além de reforço acadêmico, utilização de grandes instalações (algumas consideradas as melhores do mundo) e todo um departamento de ciência e treinamento a seu dispor.

Nem com milhões de arrecadação dos direitos de TV, ou a venda de ingressos ou material licenciado, nada disso, nenhum percentual era transferido para os atletas. Pior que isso, era até mesmo os atletas-estudantes já formados que deixavam as faculdades e seus nomes e imagens aparecem nos vídeo games e não recebiam nada por isso.

Ao mesmo, Mark Emmert, o Presidente do NCAA desde 2010 tem um salário de 2,7 milhões de dólares anuais. Outros tantos executivos em salários médios anuais de 300 mil dólares. Numa entidade considerada “sem fins lucrativos” e sem pagar impostos!

A briga judicial começou há muitos anos. Ex-atletas-alunos iniciaram este movimento de forma discreta que foi ganhando espaço e apoio. NCAA e sua seleta equipe de caríssimos advogados conseguiu arrastar o quanto pôde. Mas o futuramento recorde a cada ano só deixava mais exposta a desigualdade.

Sem resposta da Suprema Corte Americana as cortes estaduais acabaram decidindo a revelia. Primeiro a Califórnia, depois a Flórida. Amanhã, dia 1o de julho, independente do que aconteceu esta semana eram sete estados onde o amadorismo no esporte universitário estaria revogado.

A Suprema Corte finalmente julgou e decidiu, por unanimidade, 9×0, desde segunda-feira eliminou qualquer possibilidade do NCAA tentar reverter o quadro. No dia 30 de junho, foi a vez do Board of Directors da entidade reconhecer que não tinha volta e revogou por completo o status amador do esporte universitário.

Quem disser ou garantir o que vai acontecer nos próximos meses ou anos, está mentindo. É um quadro e um panorama totalmente imprevisível e que pode, e vai, mudar por completo o esporte universitário americano.

O amadorismo acabou, mas algumas coisas ficaram deliberadas:
* As universidades não podem pagar seus atletas, nem bônus, nem prêmios especiais ou condições por desempenho.
* Atletas são livres para irem atrás de seus rendimentos, seja em atividades, aparições, associação de marcas.
* As redes sociais serão um grande instrumento para esta nova fase, se prepare que os atletas universitários vão virar celebridades e, finalmente, começar a faturar em cima disso.

O mercado é bom, mas o dinheiro é o mesmo. Assim, não vai sair pipocando milionário por aí, mas alguns e outros vão realmente ser beneficiados. Os três esportes principais, basquete, futebol americano e beisebol, serão os maiores concentradores de atenção e dinheiro.

Mesmo com todas as boas intenções dos novos parâmetros e até mesmo com o que o Title IX determina, como se trata de dinheiro privado não há a garantia que o esporte universitário feminino receba a mesma atenção e oportunidades. Aqui, me arrisco a dizer, não vai receber mesmo.

Para a natação, muda pouco, quase nada. Atletas vão poder desfrutar dos prêmios recebidos em competições, mas vão ter de ir atrás de seus próprios patrocinadores. A visibilidade é menor, muito menor, as ofertas são menores, muito menores.

Os nadadores estrangeiros poderão finalmente preencher os cadastros do NCAA sem medo. Não só os brasileiros, mas a imensidão de atletas que vem do exterior, agora poderão informar a real condição de seus recebimentos, seja em patrocínios, a ajuda de custo ou condições que clubes e federações lhes oferecem. Tudo isso era proibido e por anos, repito, não só os brasileiros, mas todos omitiram estes dados.

Não pense que os treinadores americanos não sabiam, até mesmo o NCAA esteve ciente de tudo isso, e apenas os casos mais gritantes eram apontados ou sofriam algum tipo de restrição. Terminou!

A regra começa a valer dia 1o de julho de 2021, mas pouco se sabe de todos os detalhes, e principalmente suas extensões. A conquista dos atletas-estudantes é gigante, enorme, e muita coisa ainda deve acontecer. Talvez, para a natação não seja ainda grande oportunidade de comemoração, mas é indiscutível que a nova regulamentação trouxe algo de muito importante em todo este processo, justiça!

Por Alex Pussieldi, editor chefe Best Swimming

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