Mortes representam perdas, vêm carregadas de dor e despertam momentos de profunda saudade, mas também nos oferecem a oportunidade de celebrar lembranças que marcaram nossas vidas. Sempre escolhi enfrentar esses momentos difíceis dessa forma.

Hoje é dia de recordar a passagem de Eduardo Scavone Schiesari, que nos deixou há poucas horas.

Eu, como tantos outros, guardo na memória o prazer que era assistir o “Francês” nadar. Ele era diferente. Durão, até um pouco “ogro”, mas acima de tudo um operário a serviço daquele timaço que o Pinheiros possuía e pelo qual tanto brilhou. Francês ficou conhecido como “Mr. Revezamento” e raramente decepcionava.

A natação brasileira sempre foi marcada por grandes rivalidades. Em diferentes épocas, os principais clubes se enfrentavam em disputas intensas, tanto nas provas quanto na contagem de pontos. Os revezamentos, porém, eram momentos especiais, quando esses confrontos ganhavam ainda mais emoção: barulho, torcida, adrenalina. E lá estava ele, sempre pronto. Francês era um leão nessas batalhas. Segundo Alberto Klar, ele costumava dizer: “Deixa comigo.”

Companheiros de equipe, adversários e gerações de atletas carregarão para sempre as boas memórias que Francês nos proporcionou.

Foi um dos raros casos de atleta formado dentro do quadro associativo do Pinheiros que alcançou o alto rendimento, chegou à Seleção Brasileira e construiu trajetória de destaque.

Há alguns anos, ao ser perguntado qual medalha considerava a mais importante da carreira — e foram muitas — ele não titubeou: a vitória sobre Gustavo Borges nos 200 metros livre de um Campeonato Paulista. Paulista, Francês? Sim. Eu jurava que ele mencionaria o Troféu Júlio de Lamare de 1994, quando conquistou quatro ouros individuais — 100m e 200m livre, 200m e 400m medley — além dos revezamentos. Engano meu. Para ele, o ouro do Paulista vencendo Gustavo Borges tinha significado especial.

Os dois chegaram a nadar juntos, treinar juntos e até trabalhar juntos por alguns anos. Francês também teve papel importante na implantação e no sucesso da Metodologia Gustavo Borges.

O esporte sempre esteve presente em sua vida, seja nas piscinas, seja na profissão de personal trainer e preparador físico. Um dos líderes daquele timaço do Pinheiros também marcou época na formação e orientação de alunos e atletas.

A vida, ao contrário do que muitos pensam, sempre faz sentido. Perder alguém sempre dói, mas a felicidade de termos desfrutado de sua presença entre nós jamais pode ser esquecida — e deve ser para sempre reverenciada.

Francês nos deixou. Sua paixão pelos carros antigos permanecerá em nossas lembranças e em sua história. Suas atuações heroicas nos revezamentos e nas conquistas do Pinheiros estarão sempre conosco.

Lá vem o Francês, dizíamos.
Hoje, porém, foi dia de dizer: lá vai o Francês… descanse em paz amigo!

Alex Pussieldi, editor chefe Best Swimming